domingo, 17 de agosto de 2008

Despedida.

A amizade mais sincera...

Ninguém – nunca – pensa em te fazer chorar.
Quantas vezes sofremos em silêncio?! Enquanto isso... Pensamos se existiria alguém disposto a nos ouvir àquela hora, quem nos daria ouvidos àquela hora?
O telefone toca - cedo da manhã ou tarde da noite – ouço aquela voz anasalada do outro lado, voz teimosa, cansada, desacreditada...Desligo. Por medo de ser inconveniente me transformo em um trote, não percebendo que o pior de uma ligação àquela hora, é acordar a pessoa, uma vez atendido, o mal já estava feito. Melhor seria dizer algo que justificasse, porém vem o medo, seria o motivo bom o suficiente?! Agora basta, está feito, desliguei o telefone.
Quantas vezes pensei em ligar, quantas vezes a coragem me faltou enquanto ainda ouvia o tocar da linha, quantas vezes pensou em trocar seu telefone pelos constantes “trotes”.
A distância faz seu papel.
Enquanto ainda próximos, me sentia em plena liberdade de ligar as 3 da manhã para contar o que sentira aquela noite. Ligava no meio da tarde pra contar que saí do regime. A meia-noite pra dizer que esqueci de dar boa-noite. Mensagens constantes. Então faltava o ânimo para sair de casa e te olhar nos olhos, e sobrava a certeza de que afinal você estaria sempre aqui, amigos nunca se vão não é?!
Então você mudou, eu mudei.
E prometemos, ligações sempre que necessárias, ou sem necessidade também. No começo me fazia tanta falta seus ouvidos, conselhos – e ar de quem seria sempre apaixonado por mim – que ligava sempre, até pra perguntar se estava dormindo (?!), e você nunca se irritou, sempre achou graça:” -Não K, tou acordado, fingi q dormi só pra vc se sentir mal de ter ligado!”, e eu sorria. Não era difícil sorrir ao seu lado, e foi com você que aprendi que gostava de homens que me fizessem sorrir, uns sorrisos leves, soltos, sem a obrigação de ninguém entender.
Com o tempo comecei a perceber quantas vezes eu poderia ter descido as escadas e te dado aquele beijo no rosto de boa noite, ter te abraçado, ter dito o quanto sua amizade fazia diferença na minha vida. Poderia ter feito mais. Poderia não ter contado todas as vezes que me apaixonei por outro, não ter deixado meu primeiro beijo te machucar tanto. Eu não sabia estar criando cicatrizes em você, sempre pensei que alimentava por mim um daqueles amores de amigo que a gente sempre confunde. Quando você foi embora eu entendi suas frases, seus conselhos. Afastava-me de toda dor, brigava com quem tentava me machucar, jamais deixou uma lagrima cair dos meus olhos.
O tempo foi passando e por achar que estava me esquecendo e vivendo sua vida, as ligações também foram diminuindo. Comecei a dormir cedo, comecei a pensar antes de ligar, o que poderia dizer? É importante o suficiente pra ligar a essa hora?
E assim o tempo foi passando.
Você sempre teve seu jeito de dizer silenciosamente as coisas. Nunca falava com todas as letras. Tua covardia também te afastou. Seus e-mails sempre reclamavam de mim, que não ligava mais, que esqueci do meu amigo. E como achei ser birra falei: Faz um MSN, mais fácil de falar. Você não quis, dizia que existia muito mais vida fora da Internet pra se prender ali, disse mais, que eu gostava pq era mas cômodo, pq tinha medo da vida lá fora.
Você sabia tanto de mim, sempre lembrava de como eu era moleque quando pequena, corajosa, quebrei braço, perna, e assim ganhei o trauma de jamais gostar de vestidos depois de moça. Também com os joelhos de menino, como ficaria bonito eu perguntava. E você sempre me dizia: - “Seus olhos nunca vão deixar ninguém perceber seus joelhos!”.
E a gente simplesmente foi deixando que tudo desaparecesse sozinho.
As ligações, de raras, passaram a “trotes”. E desses passaram a desistência definitiva.
Meus pais sempre amigos dos seus, contaram que você estava namorando, não senti ciúme, fiquei feliz. Sabia que não conseguiria corresponder a nenhum sentimento seu que não fosse amizade.
5anos.
Sem ouvir a voz, olhar nos olhos, sentir o abraço.
Eu casei, você noivou, eu tive filho, você se formou, construímos nossos sonhos.
Um dia recebo uma ligação, atendo com uma voz de quem ficou acordada com o neném a noite toda, lembro que antes de atender, olhei para o relógio, marcava 4:47, pensei na hora em você, - Deve ser ele com saudade! Não, não, deve estar triste, algo deve ter acontecido!
Atendi sonolenta, mas assustada, do outro lado da linha um soluço de quem há muito estava chorando, reconheci aquele soluçar, não era ele, era pior. Desliguei. Virei para o lado, abracei meu filho, e tentei esquecer, convencendo a mim mesma de que não passara de um trote.
Levantei, deixei meu filho sob as cobertas, peguei o telefone, ao atenderem do outro lado apenas perguntei: - Como ele está?.
Não contive as lágrimas após isso, não quis saber o que aconteceu, ou quando, apenas pensava em poder revê-lo. Viajei e fui direto ao hospital, chorei até poder vê-lo. Entrei na UTI, sua mãe tentava me acalmar, dizendo que não era bom pra ele me ver naquele estado. Eu apenas dizia que ele sabia muito bem o estado que me deixaria vê-lo em um hospital, e que triste ele ficaria se não sentisse nem uma lagrima caindo dos meus olhos. Justo ele, que tantas vezes me impediu de derramá-las.
Ao longe reconheci seu corpo, sempre foi másculo sem precisar fazer esforço, nem mesmo o acidente o deixou diferente. Fui me aproximando, e a cada passo queria não acreditar. Seu rosto não sobrevivera ao impacto. Já não podia reconhecer sua boca, queixo, pele, nada.
Eram tantos tubos, soros, sangue, que não deixavam que eu reconhecesse ali meu amigo de infância. Então passei a mão em seu peito, como tantas vezes fiz, sabia que me reconheceria sem que eu precisasse dizer uma palavra. Imediatamente ele abriu os olhos, então eu vi, seus olhos me diziam que ele ainda era o mesmo. Ele sorriu com os olhos, feliz de me ver, sei que aquilo apenas dizia que seria a última vez.
Ele permanecia calado, eu apenas disse: “Não faça isso comigo! Você prometeu nunca deixar ninguém me fazer chorar”.
Derramou algumas lagrimas e voltou a fechar os olhos, como quem lamentasse não poder dizer o contrário.
Nunca mais vi seus olhos.
Mas o amor ainda estava lá.
Sua mãe não derramou uma lagrima durante todos os dias de UTI, ela sabia que era o escudo daquela família, e se ela caísse, quem seria capaz de não deixar seus irmãos desistirem?!
No seu enterro, sua mãe enfim se deu por vencida. Como não desistir ao ver seu filho indo embora?! Eu era mãe, eu sabia que dor pior não poderia existir. Cheguei perto, sem coragem para olhar em seus olhos, apenas abracei, e disse: -Sei que ele sempre estará aqui!”
Eu sabia, eu sentia.
Ainda sinto sua presença todas as noites. Ainda ouço o telefone tocar.
Sempre te ouvi dizer: “Seus olhos foram desenhados para a tristeza”

Ainda mantenho os mesmos olhos tristes, que só ele pode ver.
Eu me contentaria com pouco, com nada, me contentaria com o silêncio.
Sinto sua falta em cada sílaba meu querido amigo. Sinto falta de poder ensinar meus filhos a chamá-lo de “titio”. Sinto falta de te ver feliz, das suas piadas, suas críticas, suas broncas. Sinto falta dos “sonhos de valsa” jogados pela minha janela todas as manhãs, de descer as escadas e brigar. De discutir no corredor.
Um amigo como você, jamais terei, você me conheceu aos 7anos, teve tempo de sobra de me consertar, mas nunca tentou. Você se afastou quando achou que era hora de me deixar viver, por isso sempre serei grata.

Nos veremos um dia, tenho certeza.

2 comentários:

André Ramiro disse...

nossa, tá inspirada, hein? haha
uma coisa eu sei. só cai a ficha quando perde. :P
bjo

Douglas Dickel disse...

Olá, prazer. Vida Simples é muito boa. Tu deve conhecer o Joseph Campbell, né? Quanto ao conto, posso mandá-lo na íntegra pra ti, se tu quiser lê-lo. Quanto à concentração das horas, temos que ver se não é utopia. Eu acho que é. Quem não pode se dedicar em tempo integral à arte deve fazê-la em qualquer buraco de tempo que sobrar, senão não faz. Eu sou um grande exemplo. Tu é fã dos Índios Eletrônicos? Abraço!